POR UMA CONCEPÇÃO DE EDUCAÇÃO VOLTADA PARA O DESPERTAR DO SENSO CRÍTICO

O sociólogo argentino Juan Carlos Tedesco afirma que a maior parte das propostas de reforma educacionais na América Latina não alcançou êxito devido o problema como a distância entre as instâncias de planejamento e execução da burocratização do sistema, a resistência dos docentes, o alto custo dos projetos e, ainda, pelas orientações e exigências externas. Dos problemas citados, interessa aqui o da distância entre quem planeja e quem executa, porque os estudos demonstram a dificuldade de se implantar mudanças da qual não houve participação de todas os sujeitos interessados. Assim, a reforma educacional “(…) com implicações urgentes para os estados e municípios, não prescinde de amplo debate com variedades setores da sociedade civil. Vejamos um dos aspectos desse problema. Ganhou corpo nos órgãos gestores de nosso sistema de ensino a idéia da “diluição” dos conteúdos da sociologia e filosofia nas disciplinas de história e geografia. Uma outra proposta seria trabalhar esses mesmos conteúdos em forma de “módulos”. A questão aqui é saber se tais idéias são possíveis ou viáveis (…)” (Sarandy) A questão que se apresenta com as propostas supracitadas é saber quais os princípios ou objetivos que foram estabelecidos para justificar a inclusão “dos saberes da sociologia e da filosofia” no ensino médio. Se o objetivo é o desenvolvimento da percepção sociológica que “(…) nos termos do antropólogo Luis Dumont, o desenvolvimento da apercepção sociológica (…)” ou nos termos do sociólogo P.Berger “(…) um processo de ver além das fachadas das estruturas sócias (…). Olhar por trás dos bastidores (…).” (Berger p. 40 e 41). Se a meta a ser alcançada com a sociologia e a filosofia for a de aproveitar o máximo o desenvolvimento do senso crítico, o qual permite uma nova visão de mundo diferente das demais áreas do conhecimento: “O estilo reflexivo não pode ser ensinado formal e diretamente, mas pode ser suficientemente ilustrado quando o professor e os alunos refazem o percurso da interrogação filosófica e identificam a maneira peculiar pela qual a filosofia constrói suas questões e suas respostas.” (Silva Apud Alves, pág. 132). Aí, sim, será inócuo o trabalho das duas disciplinas da forma “diluída” em outras áreas do saber tais como a história, e a geografia. Para que o objetivo exposto no Artigo 3//, Inciso III, da LDB N. 9.393/96: “O aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento intelectual e do pensamento crítico;” (grifo nosso), se concretize, é necessário observar as orientações expostas na Lei. Pois, segundo as novas Diretrizes, é dever da escola possibilitar ao educando, sobretudo, da instituição pública, a construção competências e habilidades necessárias à sua formação, em especial, tendo em vista a sua inserção no mercado de trabalho, conforme preconiza a resolução CEB n. 3/98, Art. 1º e art. 10º, Inciso III. A educação básica deveria primar por oferecer uma “base sólida” e geral visando à formação integral dos alunos, conforme prescreve o artigo 22:

“A educação básica tem por finalidade desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meias para progredir no trabalho e em estudos posteriores”

Mas há uma contradição, porque na realidade o que se observa é “(…) uma educação pragmática aberta para conteúdos e metodologias práticas e que produzam resultados imediatos, atendendo, assim, a uma demanda crescente de indivíduos que buscam o diploma do ensino médio muito em virtude da necessidade de possuir um nível mais avançado da educação escolar, uma qualificação (…)” (Alves p. 111). O adulto que retorna à educação básica, objetiva a conclusão do ensino médio para obter algum tipo de qualificação e, posteriormente, prosseguir estudos na universidade, pretendendo manter o próprio emprego ou para voltar a ele. Em geral são estas as expectativas que manterão os interesses dos alunos que hoje cursam a educação básica. Dessa maneira “todos” têm por meta o mesmo fim: permanecer no cargo, adentrar o mercado de trabalho e obter um diploma universitário. Se há ou não mercado de trabalho para absorver toda esta mão-de-obra egressa da escola não é o que aqui interessa. O importante é que a educação básica e, conseqüentemente o processo educativo vigente tem por idéia predominante que o aluno deve ser “sujeito de sua própria formação”. Se ele fracassa a “culpa” é toda sua porque não desempenhou bem “ (…)o seu papel de sujeito da sua própria formação; por não ter superado a moral heterônoma; em sua por manter-se dependente dos autores: dos professores, da escola, do Estado.” (Alves, p.113). Dessa maneira pode-se afirmar que faltou ao aluno competência. Permanecer neste discurso é não sair das duas maneiras distintas e antagônicas de conceber a educação: primeiro a da crença em uma escola “redentora” da sociedade (visão revolucionária) e a segunda é a de “descrença nesta possibilidade” (visão capitalista). A educação desejada é aquela capaz de fazer que os educandos se apropriem e aprendam, em seus fundamentos, os conhecimentos elaborados pela sociedade até o presente momento, contribuindo para a transformação social: “(…) que é a conscientização, entendida como passagem de uma consciência reflexiva, de uma consciência em si para uma consciência para-si, de uma consciência dogmática para uma consciência crítica.” (Severino Apud Alves, 1986, p.37). Nestes termos, um projeto educativo que tenha por finalidade o conhecimento dos “fundamentos”, das razões, dos “objetivos das coisas principais, no sentido de que os alunos não sejam meros espectadores, mas sujeitos, não pode prescindir da filosofia e do ensino de filosofia, não pode olvidar a sociologia e o ensino de sociologia. Tais disciplinas configuram uma contribuição indispensável, neste processo, para que este aprendizado se construa não de maneira servil e passiva, porem de forma crítica e coerente, ou seja ativa. A pertinência do ensino de filosofia e da sociologia não é apenas uma preocupação em nosso país. No final da década de 90, a UNESCO patrocinou na França, um encontro internacional intitulado “Filosofia e Democracia no mundo”, ao final redigiu-se uma “na qual afirmam: “(…) filósofos, cientistas sociais e intelectuais de renome mundial afirmavam que ‘o ensino de Filosofia deve ser preservado ou estendido onde já existe, criado onde ainda não exista (…) Ao mesmo tempo, também ressaltava-se que ‘o ensino de filosofia favorece a abertura do espírito, a responsabilidade cívica, a compreensão e a tolerância entre as individuais e os grupos.” (Texto 7, Padre Roque). Portanto, o ensino de filosofia e de sociologia no ensino médio não pode ser considerado de forma isolada nem como um processo novo caracterizando por temores e polêmicas que causam uma novidade “(…) nem no Brasil, nem no resto do mundo; como também este ensino não pode ser reduzido o projeto atravessado ou pendurados em grades curriculares em que os conhecimentos positivistamente valorizados (Ciência exatas, físicas e biológicas) gozem de carga-horária privilegiadas. Há que se resgatar a importância histórica destas disciplinas para a formação de uma sociedade em que a democracia, fundamentada pela educação de seu povo, garanta sua solidez e perenidade.” (Penna, texto) O despertar da “Consciência para-si”, de uma “Consciência Crítica” deve contar com o auxílio das disciplinas humanísticas, dentre outras – Filosofia e Sociologia – que muito têm a contribuir com a formação do jovem, sobretudo, naquilo que lhe é mais peculiar – o questionamento. Desmistificando ideologias e apurando o pensamento crítico das novas gerações.

 

Fonte:http://filosofialimite.blogspot.com/2009/09/filosofia-e-sociologia-no-ensino-medio.html

 

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