Com a cabeça baixa, um exausto mas determinado rapaz repetia de novo e de novo para si mesmo:

– Você pode fazer isso! Você pode fazê-lo, você pode, você pode!

Essas palavras, ditas tanto como encorajamento quanto como confirmação, encontraram um coração atento. Sem falhar, elas levaram um pé na frente de outro, para o alto no ar e então para baixo – de novo e de novo e de novo.

O rapaz observava intensamente enquanto, um a um, seus tênis novos batiam no asfalto que passava lentamente debaixo dele. Era um tropel muito cansado. Olhando para cima, o jovem esfregou a testa e procurou por um vislumbre da linha de chegada.

“É em algum lugar lá na frente” – disse para si mesmo. Estava muito longe. Mesmo assim, Chris Burke estava decidido a alcançá-la.

Com grande esforço, ele também cruzou a linha de chegada. Quando chegou, fotógrafos e repórteres já haviam se reunido em volta do jovem que chegara em primeiro lugar.

As câmeras davam closes e espocavam flashes microfones se esticavam para a frente para captarem as palavras do vencedor. Com um sorriso que se abria de orelha a orelha, Chris triunfantemente saltou e ficou orgulhosamente ao lado do vencedor.

Passou os braços em volta do rapaz de sua própria idade – alguém que ele nunca havia encontrado antes desse dia. Radiante, Chris esperou pacientemente que o repórter completasse sua entrevista com o vitorioso – tão pacientemente quanto podia em um momento que lhe era tão emocionante.

Quando por fim o repórter virou-se para a câmera para suas observações finais, Chris instantaneamente deu um passo à frente e esticou a mão para receber um aperto de mão de congratulações.

– Nossa! – gritou Chris, incapaz de reprimir sua óbvia felicidade. – Só quero dizer como isso foi emocionante e como estou feliz de ter chegado em terceiro!

O repórter não teve saída a não ser responder ao carismático e entusiasmado atleta, querendo seu momento de reconhecimento.

– Sim, conte-nos a respeito – gaguejou de boa vontade o surpreso repórter.

– Uau! – disse Chris. – Obrigado por me entrevistar. Isso é ótimo! Simplesmente ótimo. Sim, eu apenas estou muito feliz por estar aqui. É uma honra. Claro que terminei em terceiro lugar. Terceiro lugar, que ótimo!

Ele não precisava de uma resposta para esta pergunta e não esperou por uma. Ao invés disso, virou seu rosto animado para que o mundo todo visse – isso foi em cadeia nacional – e, com mais alegria do que me lembro ter visto em alguém, disse:

– Obrigado a todos por compartilharem desse momento muito especial comigo. É hora de comemorar!

Dito isto, Chris se virou e correu para a fila para receber os abraços e os apertos de mão junto com o vencedor. Chris tinha quatorze anos na época. Isso foi nas Olimpíadas Especiais.

Só havia três corredores na corrida.

 

(Bettie B. Youngs Extraído de Gifts of the Heart)

 

 

Nota do editor: Para entender o significado moral da história de Chris, deve-se saber que ele tem síndrome de Down, uma condição causada por um defeito genético. Crianças com síndrome de Down possuem um cromossomo a mais, resultando em uma semelhança incomum na aparência, impedimentos no desenvolvimento e um limite de potencial. Como o QI chega no máximo a 75, as capacidades e as habilidades são severamente limitadas – ou assim se pensava. Quando Chris nasceu, em 1965, os médicos recomendavam que os pais de filhos com síndrome de Down colocassem seus filhos em sanatórios, a maioria dos quais fazia pouco mais do que oferecer cuidados físicos. Grande parte do mundo hoje em dia conhece Chris Burke não apenas através de sua inesquecível entrevista anos atrás, mas também como o carismático e talentoso ator da série de televisão “A Vida Continua”

Fica a dica.

Ricardo.

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