Armando Correa de Siqueira Neto*

Muitas são as queixas sobre a convivência social. Elas vão da superficialidade do maquinal cumprimento “tudo bem?” cotidiano ao brutal e, por vezes, frio assassinato que encobre a realidade da ignorância e do entorpecimento psicológico advindo das drogas. Tais críticas podem surgir através do bate-papo ou do desabafo publicado na mídia, por exemplo. A necessidade de se expressar faz a ocasião. Percebe-se, em alguns casos, boa articulação de ideias e excelente redação para descrever o que se sente acerca do obscuro e eventual prognóstico. Tratar do assunto tornou-se item de primeira necessidade, haja vista ele dizer respeito à qualidade de vida que se pretende desenvolver e, no caso extremo, da própria sobrevivência, pois não há garantia de salvaguarda para ninguém. No caldeirão das discussões, dentre outros pontos, pode-se ajuntar a enraizada pobreza; a deficiente educação; a ausência do pensamento crítico; a acomodação e o péssimo exemplo dado por certas autoridades.

No entanto, há um fator determinante que não é considerado na análise: as informações genéticas relacionadas à aptidão para a sobrevivência do ser humano. Sabe-se hoje que o homem obedece, ainda que inconscientemente, aos mandos do DNA, que sempre lhe assegurou aperfeiçoamento e continuidade através da descendência, e, para tanto, independentemente das questões morais ou religiosas, truques e trapaças são usados no jogo da vida. É claro que existem aqueles que já atingiram melhor grau de consciência e possuem a sua bússola moral própria a despeito de qualquer lei existente. (Falta-lhes muito ainda, vale destacar.) Boa parte das pessoas, contudo, não enxerga com a mínima clareza tal situação, e torna-se refém dela. Pior: quase todos negam, de boa fé, porém autoenganadamente, se encontrar sob os efeitos de tal cegueira. Mais: alegam serem bons e caridosos, sem falar no sofrimento pelo qual passam em razão da maldade alheia. Não é assim? Infelizmente, enquanto não se abrir o olho da razão, ainda que cause dor e constrangimento pessoais, as coisas tendem a permanecer no seu mesmo lugar.

Logo, por mais que se grite heroicamente aos quatro cantos a dor e o horror percebidos na convivência social, estar-se-á lutando sem as devidas armas pela baixa potência dos argumentos escolhidos. Pouco se avançará sem se levar em conta o fato essencial: o ser humano é substancialmente rude (bastaria observar as relações familiares), medroso e infantil (fará qualquer coisa para se safar do mal-estar, inclusive mentir) e egoísta (até quando se mostra altruísta, pois o que mais pesa é o reconhecimento próprio).
É, pois, pela autoavaliação e aceitação legítima, em si mesmo, do considerável atraso existente que se alcança a necessária consciência há tempo sufocada pelo autoengano, e, da aflição que se segue, é que se pode agir oportunamente, decidindo-se por qualquer mudança cuja transformação pode levar a novas compreensões e atitudes que observem a evolução e o bem-estar próprio e comunitário.

*Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo (CRP 06/69637), diretor da Self Consultoria em Gestão de Pessoas, professor e mestre em Liderança pela Unisa Business School. Coautor dos livros Gigantes da Motivação, Gigantes da Liderança e Educação 2006

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